quinta-feira, 12 de abril de 2012


PJ não reza

Sabe aquelas histórias sobre a PJ que vira e mexe a gente gasta um tempo enorme para desmentir? Se eu lhe oferecer a chance de pensar em três destas histórias, certamente uma delas será “a PJ não reza” ou “a PJ não tem espiritualidade”, não é verdade?

Este caso chega a ser repetido por tantas e diferentes pessoas, que acaba se tornando parte da mitologia pejoteira: um grupo de histórias fantásticas e/ou fantasiosas que servem para explicar ou justificar para um grupo de pessoas porque a PJ é do jeito que é.

Quem acompanha este blog sabe que eu defendo a espiritualidade pejoteira como uma das marcas fortes de nossa identidade pastoral. E se esta é uma das características marcantes do nosso jeito de ser, é claro que este mito de que a PJ não reza é algo que nos foi atribuído e que muita gente repete por aí, mas não é algo que faça parte de nossas características.

E como é que nós rezamos? Nossa espiritualidade tem características bem definidas: elaé centrada na pessoa de Jesus e na sua missão, parte sempre de nossa realidade concreta e leva sempre a uma transformação pessoal, grupal e social.

Mas se a nossa espiritualidade é tão bem definida, como podem algumas pessoas dizer que a PJ não reza? Porque na cabeça de algumas pessoas, oração é algo extremamente individualista, que é cercado de mistério e que celebra uma relação vertical (entre a pessoa e Deus) e deixa de lado a relação horizontal (entre as pessoas).

Há também aqueles que apontam para a espiritualidade como algo que esteja desligado das coisas da vida cotidiana. Herdeiros de um platonismo mal explicado, acham que só valem mesmo a pena as “coisas do alto” e que as “coisas do mundo” só servem para nos corromper.

Por fim, entre os que acham que a PJ não reza há também aqueles que despiram Jesus de sua vida e de sua proposta. Para estes, Jesus é o maior dos milagreiros, quase um super mágico. E quase ignoram o que venha a ser Reino de Deus, quase sempre associado ao prêmio da vida após a morte para aqueles que se sacrificaram durante esta vida mundana, seguindo ao pé da letra regras e preceitos.

Então, se é assim, é fácil ter uma espiritualidade pejoteira, não é?. Infelizmente isto não é verdade. Eu já pude presenciar muitos lugares em que, de fato, a PJ não reza. E isso normalmente acontece porque não se faz a integração fé e vida de forma harmônica.

Já fui em tantas reuniões e encontros em que as pessoas simplesmente não param um minutinho para uma reflexão em torno dos mistérios da vida e da fé que nos motiva a seguir adiante. E tantas outras em que havia no cronograma o momento da “espiritualidade”, mas que estes eram momentos de discursos chatos que só falavam e falavam, mas não mexiam, provocavam ou motivavam as pessoas. Há pejoteiro que confunde oração com formação e despeja sobre os demais sua boa (ou má) oratória.

Há pejoteiro que descuida ou que acha pouco importante a oração pessoal. Para eles, bons mesmo são os momentos em que ele reza com o grupo. Claro que estes são momentos importantes, mas não se pode abrir mão do momento de rezar sozinho. Se você é capaz de guardar cinco minutos diários para estar em sintonia com a sua própria vida, com a vida dos seus irmãos, amigos, familiares, conhecidos, pedir a Deus por eles, pedir paciência para lidar com suas relações, agradecer os momentos vividos e, como dizia o padre Zezinho, pedir a sabedoria para dizer “a palavra certa, na hora certa e do jeito certo e para a pessoa certa”, você já fez grande coisa. Isto também é alimentar diariamente sua espiritualidade.

É claro que estes momentos não substituem as orações em grupo ou a celebração eucarística de sua comunidade. Todas elas têm sua importância e nenhuma delas toma o lugar da outra. A PJ tem como característica enriquecer os momentos de espiritualidade em grupo com elementos que saltam aos sentidos. Há muita cor, luzes e sombras, cheiros e sabores, vida e história, sonhos e desafios, toques e movimento, música e dança, símbolos e significados presentes nestas celebrações e orações. Este é um diferencial. E isto é muito importante. Basta ver, como exemplo, o uso da Leitura Orante da Bíblia ou do Ofício Divino da Juventude.

A PJ reza? Claro que reza! Que pergunta! Mas é preciso estarmos atentos sobre o valor que damos a estes momentos e como eles são conduzidos. Momentos de espiritualidade não são “blocos” a serem preenchidos num cronograma de reunião ou encontro, mas sim elementos fundamentais para fortalecimento da nossa identidade e da nossa m

A Igreja e a Juventude – parte 1

Estamos às vésperas de uma nova Campanha da Fraternidade sobre Juventude. Isto já foi tema deartigo neste blog. E estamos também nas vésperas da primeira Jornada Mundial da Juventude por aqui. Os dois acontecimentos ocuparão o cenário eclesial no ano de 2013. É natural, portanto, que muitos pronunciamentos da Igreja nos últimos tempos sejam direcionados para a juventude. 

A proposta deste artigo é resgatar alguns dos pronunciamentos da Igreja sobre os jovens nos últimos 50 anos. Diz o documento 85 da CNBB sobre a evangelização da juventude que  “a Igreja Católica é uma das organizações que tem mais experiência acumulada e sistematizada no trabalho com a juventude. É importante resgatar essa experiência, estando atentos aos sinais dos tempos” (CNBB, Evangelização da Juventude – Doc. 85, n° 49).

Além de resgatar estes pronunciamentos, a proposta é apontar onde podem ser consultados. Como a pesquisa foi relativamente grande e muito material foi colhido, este artigo será dividido em duas partes. Vejamos a primeira delas.


O decreto “Apostolicam Actuositatem”, do Concílio Vaticano II, inspirado na ACE, trouxe a reflexão de que os jovens “devem tornar-se eles os primeiros e imediatos apóstolos dos jovens, realizando o apostolado no meio deles e através deles, levando em conta o ambiente em que vivem” (Decreto “Apostolicam Actuositatem”, 12).

Durante a conferência de Medellín, para atualizar as conclusões do Concílio Vaticano II para a América Latina, o tema da juventude voltou à tona. Ela é tida como “uma grande força nova de pressão” e como “um novo organismo social com valores próprios”, capaz de renovar constantemente a vida da humanidade, e como símbolo da própria renovação enquanto Igreja (CNBB, Evangelização da Juventude – Doc.85, n° 89). A conferência também aponta para a necessidade de se desenvolver, dentro da pastoral de conjunto, uma autêntica pastoral de juventude, para educação dos jovens a partir de sua vida, com o ingresso e participação plena na comunidade eclesial.

Onze anos depois, os bispos da América Latina se reuniram novamente, agora em Puebla, no México. Se em Medellín a marca foi a opção preferencial pelos pobres, em Puebla, esta marca foi confirmada e ampliada: opção preferencial pelos pobres e pelos jovens, com vista à missão evangelizadora no continente. Estes são vistos novamente como dinamizadores do corpo social e modelo de renovação para a própria Igreja. “O serviço prestado com humildade à juventude deve fazer com que mude na Igreja qualquer atitude de desconfiança ou incoerência para com os jovens” (Puebla 1178).

Em Puebla também houve indicações para dinamizar a pastoral da juventude. A conferência pediu que ela levasse em conta a realidade social dos jovens e os ajudassem na condução de um processo de educação na fé, que levasse à própria conversão e a um compromisso evangelizador. Pediu também que os orientassem em sua opção vocacional, oferecendo-lhes, inclusive, elementos para se converterem em fatores de transformação, seja na Igreja ou na sociedade. Que esta fosse uma pastoral articulada, alegre e portadora da esperança. . (Sobre Pastoral da Juventude, ver no documento de Puebla os itens 1187, 1200, 1205, 1189, 1190, 1193, 1195, 1196, 1197, 1199).

Em 1980, durante sua primeira visita ao Brasil, o Papa João Paulo II disse aos jovens: “É urgente colocar Jesus como alicerce da existência humana. (...) A vida, o destino, a história presente e futura de um jovem, depende da resposta nítida e sincera, sem retórica, sem subterfúgios, que ele puder dar a esta pergunta. Ela já transformou a vida de muitos jovens” (João Paulo II aos jovens brasileiros em Belo Horizonte (1/7/1980) em A palavra de João Paulo II no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1980, pp. 37 e 38.).

O Papa João Paulo II trata do diálogo cordial, claro e corajoso que deve existir entre a juventude e a Igreja, retomando palavras do Concílio Vaticano II: “A Igreja olha para vós com confiança e amor... Ela é a verdadeira juventude do mundo... Olhai para ela e nela encontrareis o rosto de Cristo” (Exortação Apostólica  “Christifideles laici” 46).

Após realizar a primeira jornada mundial da juventude, o Papa João Paulo II disse em sua  mensagem pascal de 7 de abril: “Os jovens estão diante de uma missão cada vez mais difícil e fascinante: a de mudar os mecanismos fundamentais que fomentam o egoísmo e a opressão nas relações entre os Estados e de assentar novas estruturas orientadas à verdade, à solidariedade e à paz”.

Em 1992, ocorreu a Campanha da Fraternidade sobre a juventude. O texto base foi estudado por inúmeros grupos de jovens no país. Era um estudo sobre a realidade juvenil e um parecer novo para muitos jovens, que liam, pela primeira vez, algo da Igreja exclusivamente sobre eles.

Em Santo Domingo, conferencia latino americana ocorrida também em 1992, os bispos reafirmam a opção preferencial pelos jovens de Puebla, não só de modo afetivo, mas efetivamente (opção por uma pastoral da juventude orgânica, com acompanhamento, com apoio real, com diálogo, com maiores recursos pessoais e materiais e com dimensão vocacional).

No documento de Santo Domingo lemos sobre a necessidade de ampliar parcerias com organizações eclesiais e laicas, que assumem com ousadia e transparência a causa dos jovens e dos pobres. “É tempo da Igreja se renovar e assumir um rosto e um coração mais juvenil e uma opção mais afetiva e efetiva pela causa dos jovens e dos pobres”(Documento de S. Domingo, item 114).

O Documento de Santo Domingo, no item 113, pede que na Igreja da América Latina os pastores acompanhem espiritualmente e apoiem os grupos. Apresenta também a necessidade de se ter uma linha pastoral em cada país que contribua claramente com uma pastoral juvenil orgânica.

O Projeto Rumo ao Novo Milênio da CNBB reconheceu oficialmente o Dia Nacional da Juventude, as Missões Jovens e a Semana da Cidadania. Esta passou a ser uma atividade nacional da Pastoral da Juventude a partir de 1996. Ela surgiu com o objetivo de concretizar os compromissos assumidos na 11ª Assembléia Nacional, bem como dar continuidade ao tema da Campanha da Fraternidade e impulsionar os grupos de jovens a desenvolverem atividades concretas em seus ambientes de atuação.

No final de 1997, foi publicado o Marco Referencial da PJB. Ele é fruto de uma longa caminhada, iniciada em 1986, quando a CNBB divulgou o documento de estudos número 44 sobre a Pastoral da Juventude no Brasil. Muita coisa aconteceu, diversos estudos ocorreram de lá para cá. Um pouco disto tudo, está nestas páginas. O Marco Referencial é um documento que ajuda a situar a PJ do Brasil no contexto da Igreja no país, da sociedade e da sua própria caminhada.

Na exortação sinodal Eclesia in América, o Papa João Paulo II fala da importância do trabalho pastoral com os jovens, seja nos ambientes específicos, seja na comunidade eclesial. Além de indicar a necessidade constante de atualização com o mundo juvenil, o Papa incentiva que se articule o trabalho da PJ nas paróquias e dioceses, e se fortaleça as articulações interdiocesanas e internacionais:

"A ação pastoral da Igreja logra alcançar muitos destes adolescentes e jovens, mediante a animação cristã da família, a catequese, as instituições educacionais católicas e a vida comunitária na paróquia. Mas existem muitos outros, especialmente entre os que sofrem várias formas de pobreza, que se situam fora âmbito da atividade eclesial. Devem ser os jovens cristãos, formados numa consciência missionária amadurecida, os apóstolos dos seus coetâneos. Faz falta uma ação pastoral que alcance os jovens nos seus vários ambientes: nos colégios, nas universidades, no mundo do trabalho, nos ambientes rurais, com uma adaptação apropriada à sua sensibilidade. Será também oportuno desenvolver, no âmbito paroquial e diocesano, uma atividade pastoral da juventude que leve em conta a evolução do mundo dos jovens, que procure dialogar com eles, que não exclua as ocasiões propícias para encontros mais amplos, que anime as iniciativas locais e valorize o que já se realiza a nível interdiocesano e internacional”.

Além disso, há nos documentos da Igreja do Brasil uma atenção sempre especial à juventude. O item 236 das Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja (de 1999 a 2002) diz assim:

 “Os jovens ‘são um grande desafio para o futuro da Igreja’. Eles não são apenas destinatários da evangelização, mas dela devem tornar-se sempre mais sujeitos ativos, ‘protagonistas da evangelização e artífices da renovação social’. A Pastoral da Juventude, portanto, deve estar entre as principais preocupações dos pastores e das comunidades”. (CNBB – Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (1999-2002) – Paulinas – p. 145).

Sete maravilhas da PJ


Sete maravilhas da PJ

Quando falamos em “maravilha” pensamos em algo que nos desperta uma grande admiração por causa daquilo que é capaz de fazer ou por sua perfeição, grandeza oubeleza. Há uma lista já bem difundida de sete maravilhas do mundo antigo (As Pirâmides de Gizé, os Jardins suspensos da Babilônia, o Farol de Alexandria, o Colosso de Rodes, o Mausoléu de Halicarnasso, a Estátua de Zeus em Olímpia e o Templo de Ártemis em Éfeso) e de outras sete maravilhas do mundo moderno (Muralha da China, Petra na Jordânia, Cristo Redentor no Rio de Janeiro, Machu Picchu em Cuzco no Peru, Chichén Itzá em Yucatán no México, o Coliseu em Roma e o Taj Mahal na Índia).

As duas listas com as sete maravilhas são de locais importantes seja por sua história, por sua arquitetura ou por serem locais de grande visitação, devoção ou memória. Há algumas outras listas de sete maravilhas espalhadas por aí. Todas elas valorizam o que se julga ser aquilo que há de mais importante, relevante ou notável.

Como listas são coisas totalmente discutíveis e eu não quero abrir mão de uma boa discussão (porque aprendemos sempre com quem pensa diferente), lanço aqui no último artigo da série “Os Sete” as “Sete maravilhas da PJ”. São elas que diferenciam a PJ de outras formas de organização juvenil e, por causa delas, eu estou na PJ até hoje. Vamos a elas.

1- A formação integral

Minha primeira formação na PJ foi sobre a formação integral, então creio que seja justo começar a lista por ela. O primeiro contato foi importante para perceber que havia algo sério e bem interessante ali. O jovem não era tratado por “pedaços” (lado espiritual, lado comunitário, lado individual), mas como um todo onde cinco aspectos interagem: pessoal, grupal, espiritual, social e de capacitação. Há tanto o que se possa falar sobre cada um deles.

Com o tempo, fui aprendendo que todos estes aspectos devem ser tratados com o mesmo e o devido respeito, mas com intensidades diferentes, dependendo do estágio em que o jovem se encontrasse. Por exemplo, no início da caminhada no grupo, há de se privilegiar o aspecto pessoal e de integração com os demais jovens.

Conforme é dito no livro “PJ: um jeito de ser e de fazer”: “Todas essas dimensões são mediadas pela arte, pela beleza, pelo lúdico, com a transversalidade da ecologia, da comunicação e da atuação em rede. O lugar privilegiado para trabalhar as dimensões é o dia-a-dia do grupo de jovens. Um dos segredos, porém, para se viver e trabalhar as dimensões em passos crescentes é a maneira como as reuniões, encontros e assembleias são preparados. A grande ‘sacada’ é saber garantir em cada oração, reflexão e estudo, espaços para que os jovens possam viver cada uma destas etapas, ou seja, que ele/a pense na sua pessoa, nas suas relações, que ele/a se comprometa e tenha esperança, reforce sua fé e, finalmente, que seja capaz de adquirir e trabalhar suas potencialidades e dons”.

2- O método ver julgar agir rever e celebrar

Minha segunda formação pejoteira foi sobre o método ver julgar agir rever e celebrar. Aprendi que método é o melhor caminho para chegar a um determinado fim. E que o “fim” para a PJ era o Reino de Deus. Pude tomar conhecimento também que o caminho deste método era formado por cinco etapas contínuas:

Ver é fazer a análise dos problemas e avanços a partir de uma realidade concreta em que se vive. Ajuda se respondermos a algumas perguntas: Qual é a raiz do problema? Como começou a história? Que fatores a tornaram com o aspecto que tem agora? É possível apontar as consequências que este fato acarretará? Quais seriam? Quem está envolvido direta ou indiretamente a este problema? É importante indicar as causas dos problemas que se discutem, distinguindo as causas aparentes, as imediatas, as secundárias e a causa principal. As ciências sociais têm boas contribuições para podermos entender melhor as causas e consequências dos problemas analisados.

O julgar já vem emaranhado nisso tudo. Qual nosso parâmetro diante de uma realidade com tantas portas. Que caminho escolher? Diante da realidade vista e analisada, você se sente incomodado enquanto cristão? Ver o que a Palavra de Deus e os documentos da Igreja têm a nos dizer sobre esse acontecimento é o nosso parâmetro como cristãos católicos. É antes de tudo não se deixar corromper pelo sistema vigente e tentar ver o problema pelos Olhos de Deus, para achar a solução mais adequada.

O agir acontece depois de analisarmos os fatos concretamente e julgá-los a partir da Palavra de Deus. É hora de vermos o que pode ser feito de concreto para solucionar o problema, ou para caminhar melhor em nossa estrada. Dependendo da análise no ver e julgar, nossa ação pode ser assistencialista (só desperta a pessoa para o problema), de solidariedade (atua nas consequências do problema) ou transformadora da realidade (ataca as causas). Não adianta querer atingir este ponto logo de início, sem antes passar pelos outros dois, pois não se teria feito uma análise correta dos fatos para uma resolução coerente. Quanto ao agir, vale lembrar que não se educa ninguém para a liberdade, para o amor e para a responsabilidade, se não acontecer a prática destes três itens. A teoria e a ação têm que caminhar juntas.

O rever é a avaliação da atividade desenvolvida, é poder ver a realidade a partir de um outro ângulo, com o parâmetro de alguém que já vivenciou, que tem experiência. Ele abre novamente o círculo, pois na medida em que chegamos no agir, precisamos rever as atitudes, julgar novamente os procedimentos e voltar a agir. Cada erro corrigido significa um futuro acerto. Neste momento de avaliação é importante valorizar as conquistas, mesmo que pequenas.

A cada ação nossa realizada devemos celebrar, a fim de agradecer a Deus sua presença animadora em nossa caminhada. E celebramos não só os momentos de alegria, mas os de tristeza também. De tudo é possível tirar uma lição. A celebração litúrgica é um elemento catequético significativo enquanto anuncia e alimenta a utopia cristã. Fortalece a fé e coloca o grupo e seus membros em contato com o Mistério central do cristianismo: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

O método ajuda a superar a passividade, a formar lideranças que pensam por si mesmos e que superam o comodismo e a falsa sensação de estar bem consigo mesmo e com Deus. Há um ganho na atividade pastoral, pois não se separa a fé da vida e se evita uma pastoral de ativismo, onde não se reflete sobre o que se faz. É muito utilizado na Igreja da América Latina como método de elaboração de documentos. É muito útil para os grupos de militantes que já alcançaram um processo de amadurecimento, entretanto, tem que se saber utilizá-lo de forma criativa, principalmente com iniciantes.

3- Os pequenos grupos

Estudando a história da PJ aprendi que a Grupos de base são grupos onde se criam relacionamentos de irmãos, confrontando a vida com o evangelho e formando lideranças jovens para o engajamento na comunidade eclesial e na sociedade. Descobri também que a grande inspiração para que eles sejam desta maneira é o grupo de Jesus: os Doze. Um grupo pequeno, onde se pode partilhar vida e cultivar a amizade e prepará-los para a missão.

Grupos grandes tem o atrativo de serem mais chamativos ou atraentes, mas correm alguns riscos: não concentrarem o foco (por conversas paralelas ou falta de interesse), não se conhecer bem todos os participantes, alguns dominarem e outros nada opinarem. Grupos pequenos tem a vantagem de se conhecerem melhor e aprenderem a lidar com as pequenas diferenças que surgem no relacionamento. Além disso, eles tem, normalmente, uma menor rotatividade de integrantes comparados com os grupos grandes.

4- A revisão de vida e prática

Já foi falado aqui no blog sobre a Revisão de Vida e Prática. São instrumentos valiosos para que os jovens dos grupos (sejam de que grupos forem) poderem sentar e analisar suas vidas e suas práticas pastorais à luz da proposta evangélica e assim poderem melhorar ambos.

Quando um grupo faz a Revisão de Vida (RdV) ou a Revisão de Prática (RdP) todo os integrantes sentam juntos, inclusive a coordenação. Pede-se que haja nestes momentos uma assessoria madura para ajuda-los. Normalmente as críticas e sugestões de mudança de postura não são coisas tão simples de serem ouvidas. Por vezes há comportamentos que são fruto de mal entendidos. Estes instrumentos são ótimos para resolver este tipo de problema. Contudo, é preciso deixar claro que quem participa de um RdV ou de uma RdP precisa estar disposto a melhorar.

Além da melhora individual estas duas práticas ajudam o jovem a se situar diante da história não só pessoal, mas da história da sociedade. Por isto o grupo que usa destes instrumentos precisa viver também uma espiritualidade encarnada, do cotidiano e que supere a consciência ingênua das coisas, a fim de se chegar a uma consciência crítica e objetiva da realidade.

5- A espiritualidade do cotidiano

O jovem pejoteiro cultiva a própria espiritualidade no cotidiano, nas relações diárias. São nestes campos de atuação que ele procura viver e fazer a experiência de Deus. É esta experiência que o anima a caminhar. Cursos e formações só dão os mapas e possibilidades de destinos. A vontade de prosseguir nos caminhos é uma vontade espiritual. E o caminhar pejoteiro é a vivência do projeto de Jesus neste dia a dia. Essa é a raiz de sustenta a nossa espiritualidade.

Quem vive a espiritualidade nesta busca por fazer acontecer o Evangelho de Jesus no cotidiano e e na experiência da presença de Deus na própria vida não faz com que a nossa mudança aconteça somente por dentro, mas também nas nossas relações sociais e no ambiente que nos cerca. Se percebemos a presença de Deus no dia a dia das pessoas, notamos que em muitos lugares não há os sinais de vida que estava em Seu plano original. É essa mesma espiritualidade que motiva e movimenta o ser humano à luta pela justiça, pelos direitos dos pobres, para tornar a sociedade mais fraterna e solidária.

O jovem que vive a Espiritualidade da Pastoral da Juventude tem prazer em celebrar esta fé. Fé que é enriquecida por muitas culturas, visualizada em muitas cores, cheiros e particularidades. Uma espiritualidade que acolhe e dá carinho às pessoas. Que nos move a estar a serviço, em comunhão, com profetismo em defesa da vida até as últimas consequências.

6- O protagonismo juvenil

Já nos primeiros cursos que fiz, a expressão “protagonismo juvenil” já era utilizada. Explicavam os nossos assessores que esta era uma prática utilizada na PJ e incentivada pela Igreja. Era o “jovem evangelizando jovem”. Foi um despertar para mim, uma novidade. E com o mesmo grau de surpresa veio também a responsabilidade. Afinal eu era jovem também. Deveria ser protagonista, deveria ser evangelizador e deveria transmitir na minha vida o mesmo exemplo de Jesus.

Com o tempo fui entendendo que além de ser testemunho e prática pessoal, o protagonismo juvenil ia além. Para a PJ, protagonismo é algo além de ter o jovem a frente de uma iniciativa ou prática bacana, não é protagonista o mero executor de atividades. Se não é a juventude quem cria formulações a respeito de si própria, mas apenas adota, participa da formulação (a partir de algo prévio), implementa (algo também que não foi estabelecido por ela), então esta juventude não é protagonista.

Como foi dito no artigo sobre protagonismo juvenil, “Na PJ dizemos que o grupo de jovens é semente do Reino de Deus. As relações que se querem criar a partir do grupo precisam ser sinal deste Reino, apontando para onde as injustiças acontecem e para onde a vida floresce. E no entender da PJ o protagonismo juvenil remete a uma ação além dos interesses particulares. Ele é o momento preciso e precioso em que os próprios jovens podam criar, interferir na essência e elaborar políticas para defesa de seus direitos. É preciso, portanto, ressignificar a expressão protagonismo juvenil para que as juventudes não sejam portadoras de um discurso que os controla e domina”.

7- O Dia Nacional da Juventude

O ano de 1985 foi decretado pela ONU como o Ano Internacional da Juventude. Como gesto concreto, a Pastoral da Juventude assumiu a celebração do Dia Nacional da Juventude (DNJ). O DNJ é o evento mais marcante da Pastoral da Juventude.  e acontece em todo o país, em todos os estados. Foi pensado como um dia em mutirão, planejado antecipadamente, com a divisão de tarefas bem definida e uma boa avaliação ao final.

O DNJ é uma atividade que normalmente reúne a massa da juventude. Em algumas localidades, porém, as coordenações de PJ procuram tratar esta festividade com trabalhos em oficinas e grupos menores. É uma ação de evangelização e consciência crítica. O DNJ procura refletir sobre a situação da juventude na sociedade, sob diferentes aspectos, sempre buscando promover a paz e a dignidade humana.

Em 1996, o Projeto “Rumo ao Novo Milênio” da CNBB reconheceu oficialmente o Dia Nacional da Juventude, as Missões Jovens e a Semana da Cidadania. Atualmente, no Brasil, celebramos o DNJ no último domingo de outubro.

Nestes 25 anos de existência do DNJ muitos temas relevantes foram discutidos. Educação, saúde, paz, cultura, terra, participação, políticas públicas para a juventude, ecologia, vida foram alguns deles. A preparação que muitos grupos fazem para este dia traz discussões importantíssimas e ajuda muitos jovens a refletirem sobre a sua realidade e a sua condição.

O DNJ, portanto, é mais do que um evento ou atividade. É um marco histórico da caminhada da PJ e uma de suas contribuições para a Igreja no Brasil. Ele quer despertar um processo de formação de “discípulos-missionários jovens” que possam ir ao encontro de todos os outros jovens ainda não atingidos pela mensagem cristã de esperança, dignidade humana, solidariedade e paz.

Todo mundo pode ser pejoteiro?


Todo mundo pode ser pejoteiro?

Não. Não pode. Próxima questão?” Seria um artigo muito curto, se o jeito pejoteiro de questionar as coisas não impedisse o caro leitor de querer saber o porquê da resposta.

Ser pejoteiro significa que a pessoa é participante e/ou articuladora desta proposta chamada "Pastoral da Juventude". E há pessoas que não podem ser pejoteiras porque isso implica assumir esta proposta com a própria identidade pastoral. Já falamos sobre isto aqui no blog. Identidade é algo que se constrói e se escolhe. Não é algo com a qual nascemos. E no que consiste a identidade pejoteira? Temos mais de 100 artigos neste blog e a maioria deles trata, direta ou indiretamente, sobre esta questão. Ou seja, é um assunto que dá o que escrever!

Resumindo, identidade pejoteira tem a ver com a vivência de uma espiritualidade libertadora e do cotidiano, de uma preferência pedagógica pelos pequenos grupos, de uma metodologia que valoriza a história, a prática, os meandros sócio-políticos, um olhar bíblico e profético sobre a realidade e a ação concreta, primando sempre pela decisão colegiada, democrática, ética e coerente.

Pejoteiros não ficam toda hora querendo reinventar a roda; querem conhecer sempre mais sobre a cultura juvenil; sabem que o jovem é o protagonista de sua ação; valorizam a pastoral de conjunto; promovem a vida; são missionários, críticos e articulados; optam por uma formação que leve em conta a pessoa como um todo; sua ação é a partir da opção pelos mais empobrecidos e pela juventude; e sabem que não sabem tudo.

Você olha para sua comunidade, para seu grupo na escola ou faculdade, para outros grupos juvenis na própria igreja e se pergunta: dá para todo mundo ser assim? Queria conhecer alguém que dissesse que sim. Daria uma boa conversa.

E há outro aspecto decorrente deste: o direito de escolha. Identidade é opção política e como tal tem suas consequências. Para que todo mundo se tornasse pejoteiro (assumindo suas características) seria preciso uma massificação plena, um decreto eclesial dizendo que a partir de tal data só valem tais práticas, posturas ou pensamentos. Sinceramente, você aceitaria isso?

A PJ sofre em muitos lugares com uma desarticulação num sentido oposto. Justamente por terem uma postura como esta que está resumida logo acima, é vista como “pedra no sapato” de muita gente que tem outra visão de mundo. E acabam sofrendo perseguições, acusações e desmantelamentos.

A PJ não tem característica de massa, mas de fermento. Não tem graça nenhuma um bolo feito só de fermento. E se tudo for fermento, ele acaba por perder sua função e vira massa também.

Se você chegou até este ponto do texto, há uma pergunta que não quer calar: se acreditamos na nossa postura e na nossa prática, se queremos fermentar a massa, se desejamos ser profetas que apontam onde estão os sinais contra o Reino e contra a justiça, por que não é certo que desejemos que todas as pessoas também sejam assim? Por duas razões bem simples, no meu modo de ver as coisas

Em primeiro lugar, você não pode obrigar ninguém a pensar como você. As pessoas são livres para agirem como quiserem e assumirem as consequências pelos seus atos. Se a gente prima pela liberdade, por que iríamos tirar o direito de escolha dos outros? Contudo, que fique claro: respeitar o direito dos outros, sim. Ser omisso e abrir mão do direito de debater ideias e discordar delas, não.

E, em segundo lugar, porque a gente não tem a verdade absoluta. Embora tenhamos todos estes princípios, o mundo gira e as coisas mudam a todo o momento. A gente precisa aprender com as mudanças. A gente precisa aprender com os outros, em especial com quem discorda da gente.

Sim, somos poucos. E, em hipótese alguma, isto deveria nos deixar tristes. Somos poucos mas nos fazemos notar. Somos poucos, mas temos espírito missionário para levar a proposta de Jesus adiante. Somos poucos mas somos bonitos e cativantes. E, parafraseando Thiago de Mello, somos poucos, mas não somos melhores e nem piores que ninguém. Melhor mesmo é a nossa causa.

E se não existisse a PJ?


Passamos a pouco pela Semana Santa e quero crer que para muitos de vocês que leem este texto, foram dias de boas e relevantes reflexões. O tríduo pascal reúne as celebrações mais importantes da nossa fé cristã. E nos faz pensar sobre os mistérios da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Para mim, em particular, estes dias me fazem pensar que, apesar da dor, apesar das tristezas ou do sacrifício, a morte não tem a última palavra. Ela não é o fim das coisas. A vida prevalece afinal. A proposta boa de Jesus não poderia morrer e ficar sepultada naquele buraco na pedra. Não era possível que a morte dominasse Jesus, como lembra Pedro no discurso após o Pentecostes.

O que estaríamos fazendo hoje se a notícia da ressurreição não tivesse se espalhado pelo mundo? É possível que muito de nossa linguagem cultural, simbólica e política seria bem diferente. Mesmo entre aqueles que não creem, a influência cristã é relevante. Nossa sociedade é bem marcada por esta história. Sem a ressurreição toda nossa fé é vazia. E, claro, não existiria também a PJ.

Fazer o exercício do que seria o mundo sem o cristianismo já foi tema de livros e teses. Daria assunto para muita conversa. E se restringíssemos nosso olhar? O que seria um mundo sem PJ? Como você que lê este texto reagiria?

Antes de mais nada, vamos partir de dois pontos óbvios:
  1. A PJ é fruto de um contexto histórico que pediu a sua criação. Se olharmos o caminhar da Igreja no mundo e em especial no Brasil do final dos anos 1950 para cá, veremos que era necessário que algo assim surgisse após as conferências de Medellin e Puebla. Ou seja, pensar que a PJ não existe é deixar de lado toda a reflexão acumulada nestes anos todos e ignorar todo o pensamento da Igreja, em especial da Igreja Latino americana.
  2.  
  3. A PJ que engatinhava nos anos 1970, que começou suas articulações maiores nos anos 1980, que encarou suas crises nos anos 1990, que rediscutia sua identidade nos anos 2000 e que olha o presente e futuro com esperança nestes anos de 2010 nunca foi exatamente a mesma, embora não fosse contraditória em sua essência. Ou seja, a história fez com que nos adaptemos aos novos contextos. Não somos os mesmos, iguais ao longo desta caminhada, mas guardamos marcas e sinais comuns e importantes que nos identificam e nos caracterizam.
Deixando claro que estamos ignorando estes dois pontos, façamos o exercício: como seria o trabalho pastoral com a juventude sem a contribuição da PJ. É uma tarefa difícil de ser feita? Infelizmente não é. E explico o motivo.

Há muitas paróquias e dioceses onde a PJ não entra ou não se organiza. Há muitos jovens engajados nas comunidades que sequer sabem a que ela se propõe, que desconhecem sua história e que ignoram as opções da Igreja nestes últimos cinquenta anos. Nestes lugares a PJ não existe.

E como funciona o trabalho com a juventude onde não existe PJ? A tendência maior é pensarmos que as opções pastorais apontariam para o oposto daquilo que a PJ vive e prega:

  • Teríamos grupos de jovens com muitos participantes. Alguns deles teriam uma alta rotatividade de membros. A PJ valoriza pequenos grupos.
  • Não teríamos trabalho articulado entre grupos, paróquias e dioceses. A PJ se dá na articulação entre os grupos.
  • Seriam supervalorizadas as atividades de massa. Elas seriam o mote do trabalho. A PJ crê na importância destas atividades, mas dentro de um processo, não como fim em si mesmas.
  • O trabalho dentro da Igreja seria o ponto forte. A proposta maior seria trazer os jovens do mundo para a Igreja. A PJ acredita na importância da vivência comunitária, mas não como via exclusiva. Ela crê que é importante levar a proposta e experiência vivida na Igreja para fora dos muros eclesiais.
  •  Uma psicoafetividade reprimida. Pouca discussão sobre a vida política e social. A PJ crê na formação integral. Nenhum aspecto deve se sobrepor a outro. Somos seres humanos inteiros e não “departamentalizados”.
Parece um cenário bem ruim, não? Existiria esperança pastoral num mundo sem PJ? Claro que sim! Quem pode prender a esperança? Há quem não conheça o trabalho pejoteiro, mas que teria uma profunda identificação com ele se chegasse a conhecê-lo. Para estas pessoas, falta o contato, a aproximação, a apresentação da proposta. Elas são pejoteiras, mas não sabem ainda.

Onde não existe a PJ é preciso cria-la, inventá-la. Ela é útil e necessária. Importante e significativa, não nos enganemos quanto a isso. Aproveitemos a oportunidade que o ano de 2013 nos apresenta. A Juventude será o grande ponto de pauta nas discussões eclesiais. É preciso que nos organizemos para isso!